Se você está estranhando a linguagem tão despojada do começo deste texto, imagine o que pensa um recrutador quando escuta o bom baianês do candidato a uma vaga de emprego. Não que seja feio nem errado falar a nossa língua do jeito arrastado e gostoso que só o baiano sabe. O problema é que o hábito faz com que muitos baianos utilizem expressões que não se aplicam à situação formal de uma entrevista de emprego.
Junto com os erros gramaticais, de concordância e até de ortografia, as expressões regionais utilizadas em excesso ou de maneira imprópria são apontadas por especialistas até como fatores de exclusão do candidato durante um processo seletivo, a depender do cargo em questão.
“Já ouvi de uma candidata que ela estava ‘plantando um pezinho de cá-te-espero’, e outra falou que estava ‘virada no istopô’ com a antiga chefe. Isso é capaz de fazer o entrevistador levantar a sobrancelha diante de linguagem tão peculiar”, exemplifica Moisés Frutuoso, gerente da unidade central do Sinebahia.
Na opinião de Frutuoso, o problema maior nas entrevistas é o pleonasmo, vício de linguagem onde ocorre redundância na expressão. “O baiano fala muito ‘repetir de novo’, ‘grande maioria’, ‘manter o mesmo’, ‘saí fora’, sem falar nas muletas: ‘e aí’, ‘tipo assim’, ‘a nível de’, indicando que o candidato tem um vocabulário restrito”. Ele aponta que o regionalismo influencia nos erros de português, pois muitas vezes não se utiliza plural ou concordância de forma adequada.
“Não há dúvida de que em uma situação formal deve prevalecer a linguagem culta, mas o entrevistador deve ficar sensível à forte questão cultural baiana. Desde que as palavras não sejam de baixo calão, não vejo problema”, enfatiza o escritor Nivaldo Lariú, autor do famoso Dicionário de Baianês, que já está em sua quarta edição e alcançou as 200 mil cópias. “O baianês é uma tradição popular, e não há como se divorciar do baianês estando na Bahia”, arremata Lariú, que é de Itaperuna (RJ), mas fala como todo bom baiano.
Na dúvida, melhor evitar
Na opinião de Hildenízia Chagas, gerente do Serviço Municipal de Intermediação de Mão de Obra (Simm), o regionalismo existe em qualquer lugar, não é uma questão só da Bahia. “O que precisamos é chamar a atenção das pessoas para o fato de que uma entrevista de emprego não combina com informalidade nem intimidade”, pontua Hildenízia.
De acordo com ela, todo mundo tem uma maneira de falar, vestir e se comportar no ambiente profissional, e este comportamento formal deve ser levado para a entrevista de emprego. “Mas, nos finais de semana e momentos de lazer, quem quiser pode usar seu vestido curto e falar suas gírias com os amigos”, acrescenta.
E em tempos de globalização econômica, Hildenízia destaca um fator ainda mais importante para o candidato pensar duas vezes antes de soltar o baianês. “Atualmente, muitas empresas selecionam candidatos em diversos estados. Se a seleção for feita na Bahia para uma empresa de fora, o selecionador pode não entender algum termo do baianês. Numa entrevista de emprego só se deve utilizar os termos que o outro conhece”, orienta.
Concordância, gerúndio, ortografia e pontuação
Não é só o excesso de baianês que pode tirar você do processo seletivo. Os especialistas ouvidos pelo CORREIO afirmaram que os erros de português continuam assombrando os candidatos a uma vaga de emprego.
“O erro de português não passa despercebido nem nos profissionais que têm experiência. A depender da vaga em questão, se o candidato falar errado, não dá para deixar passar. Mas o peso maior para os erros de português é no caso de empregos que têm contato direto com o cliente, como telemarketing e vendas”, aponta Rafaela Matias, assistente de Recursos Humanos da First RH, empresa de recrutamento e seleção.
A consultora em RH Jozete Bezerra comenta que, como trabalha com pessoas com alto nível de escolaridade, não percebe muitos erros durante a entrevista. “Em compensação, surgem muitos erros na escrita. Misturam os tempos verbais e desrespeitam as regras de concordância e pontuação”, enumera Jozete. “Muitos confundem ao grafar palavras com s, z e ç. Já recebi um currículo no qual o dono escreveu várias vezes“você” com ç. Como ele concorria a uma vaga na área financeira, não deu para relevar”.
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